Alguém disse que a vida de um homem não se conta em anos, mas em amigos. Sinto muita simpatia por esse aforisma, pois revela que o sentido da vida se dá nas relações de profunda intimidade. Trouxe para vocês verem uma caixinha de chá que um dos meus amigos me dera na semana passada. Não foi um presente de nenhuma data específica, nem um presente que custou muito caro, mas que me comoveu pela simples lembrança de um gosto. A verdadeira amizade se dá nessa relação diária, quase monótona. Não se trata necessariamente de grandes emoções, mas de presença real e afetiva.
O apóstolo Paulo encontrava-se preso em Roma. Fora preso por pregar o Evangelho. As autoridades religiosas o tinham acusado de ser desordeiro e provocador de rebeldia contra o império romano. Acusações claramente falsas. Mas havia outro preso nos calabouços escuros e úmidos de Roma. Seu nome era Onésimo, escravo de um cristão de Colossos, e estava foragido por roubar a casa de um homem chamado Filemon. Não restava muita alternativa para Onésimo além da pena de morte, segundo a lei romana sobre escravos . Onésimo refletia em seu rosto o abatimento de um homem sem esperança e sem amigos. Naquele claustro frio, Onésimo era o miserável entre miseráveis. Paulo, contudo, percebe o abatimento de Onésimo naquele lugar e se aproxima dele. É estranho que Paulo tenha se interessado por alguém como Onésimo, um homem condenado e miserável, que com certeza não representava nenhuma importância estratégica para ele. Mas Paulo conhecera a essência do Evangelho que o comovera, quando ele era ainda perseguidor e algoz dos primeiros cristãos. Paulo tinha consciência que ninguém é merecedor da graça divina. Sabia que pela graça fora alcançado quando estava no caminho para Damasco. Anos atrás, Jesus o encontrara no caminho e seu coração se converteria para sempre àquele amor incondicional e incompreensível. E é nessa despretensão de trocas e retribuição que Paulo se aproxima de Onésimo. Tornam-se grandes amigos, como diz Paulo, agora são “irmãos amados”.
Nosso mundo associou a amizade com a utilidade. A amizade utilitarista funciona nos moldes do “uma mão lava a outra”. Essa amizade no fim alimenta o próprio egocentrismo humano, porque a finalidade última é sempre o sucesso pessoal. O outro é apenas um meio, um instrumento. Então, lembrando de Agostinho de Hipona, o valor da vida não se encontra na utilidade das coisas, mas no fruir, ou seja, no prazer, na alegria, no deleite. Amizade verdadeira não se constitui na utilidade. Essa é a maturidade espiritual na qual Jesus quer nos conduzir na relação com ele e com o próximo quando ele diz “Já não vos chamo de servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz, mas tenho vos chamado amigos...”.
Que o nosso melhor amigo, Jesus Cristo, nos comova uns aos outros em graça e misericórdia.
“antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno”. 2 Pedro 3.18
Por Daniel Fujisaka